Festival do Rio 2018: O impulso bruto em A Rota Selvagem

A habilidade humana de adaptação e a fixação no território nos fez evoluir. Não mais nômades, nos movemos conforme necessidades pessoais paralelas à existência. A relação com a natureza se intensifica com a permanência, a agricultura e criação de animais também nos fez avançar progressivamente rumo à sociedade hiperconsumista que temos atualmente.  Estágios da história que envolvem a capacidade de mudança. O que é deixado pra trás quando nos deslocamos?

O interior pulsa de formas diferentes. Enquanto a urbis aglomera pessoas de diferentes locais, sendo centro de encontro de culturas híbridas, o que é do interior ainda conserva uma tradição quase incorruptível. Os corpos nesses espaços são educados sob amarras religiosas e de esforço braçal, frutos de uma visão utilitarista: são para o trabalho ou para reproduzir. É nesse cenário que se desenvolve a história de Charley (Charlie Plummer), no longa A Rota Selvagem (Lean on Pete, 2017), do diretor e roteirista Andrew Haigh (Weekend e 45 anos).

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Festival do Rio 2018: As dificuldades de ser em Tinta Bruta

Em Tinta Bruta (2018), novo filme de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, o individualismo e a hostilidade nos espaços urbanos são fatores que produzem diretamente o comportamento e humor de seu protagonista, Pedro (Shico Menegat). Após responder com violência à constante abordagem preconceituosa que sofria – e ainda sofre -, ele está em um processo de julgamento que pode levá-lo à prisão. De natureza reclusa e agora expulso da faculdade, Pedro se vê cada vez mais incapaz de qualquer convívio social, se mostrando sempre arredio frente a toda possibilidade de contato com estranhos.

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A ausência da presença em Os Jovens Baumann

Oito pessoas jogam “queimada”, uma brincadeira que consiste em tentar eliminar o outro com o arremesso de uma bola. Ao encostar no jogador adversário o mesmo deve sair. Essa recreação é conhecida também sob o nome de “jogo do mata”. É com uma sequência desse jogo que o longa Os Jovens Baumann (2018) se inicia. Podemos interpretar a primeira cena como uma metáfora do que virá a ser narrado. Como a natureza também pode ser metáfora. A vida burguesa. O descontentamento. Porém, a atenção do filme está muito mais em como os primos são eternizados no espaço, do que como eles desaparecem do mesmo.

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Festival do Rio 2018: Vermelho Sol e a origem do mal

O filme argentino, Vermelho sol (Rojo, 2018) em coprodução com Brasil, Bélgica, Alemanha e Suiça, tem circulado por festivais brasileiros como a Mostra de São Paulo, Festival do Rio e Janela Internacional de Cinema do Recife. Nos festivais internacionais, foi um dos mais premiados na 66ª edição do San Sebastián Film Festival: ganhou prêmios do júri oficial para melhor direção (Benjamin Naishtat), melhor ator (Dario Grandinetti) e direção de fotografia (o brasileiro Pedro Sotero, de Aquarius). Para uma produção latina, ele representa muito bem a necessidade de que se fale do retrocesso político pelo qual passam alguns países (não só da América Latina, bem entendido). O crescimento da popularidade de partidos com plataformas fascistas em em muitos países, dá ao filme uma urgência temática que, de antemão, o torna relevante.

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Festival do Rio 2018: As carências e a ingenuidade em Selvagem

Não há grandes novidades na abordagem de Selvagem (Sauvage, 2018), primeiro longa-metragem dirigido pelo reconhecido curta-metragista Camille Vidal-Naquet. Nome já conceituado pela mostra da Semana da Crítica do Festival de Cannes, ele encara aqui uma empreitada visceral ao desbravar a trajetória de alguns dias na vida de um michê gay. Através de um caminho seguro já percorrido por diretores como Gus Van Sant e até mesmo R. Werner Fassbinder, Vidal-Naquet desenvolve seu filme sem agregar muito à temática ou na construção narrativa. Porém é inegável o quão é enérgico e impactante no seu estudo sobre o seu personagem principal, o jovem Léo, em excepcional performance de Félix Maritaud.

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Festival do Rio 2018: O intenso Caos e a ascensão de Nadine Labaki

Nos seus trabalhos anteriores, o açucarado Caramelo (2007) e o ingênuo E agora, para onde vamos? (2011) a diretora e atriz libanesa Nadine Labaki toca em questões existenciais e sociais de maneira branda, através de uma direção bastante convencional. Reconhecida por grandes festivais, como o de Cannes, onde já levou prêmio do júri ecumênico, e San Sebastián, premiada pelo público, Labaki ganha notoriedade como representante de um certo world cinema. Seu mais recente trabalho, contudo, atinge um novo nível de apreço em tal circuito ao ser ovacionado em Cannes e conquistado o Prêmio do Júri, primeira vez entregue a uma cineasta árabe.

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Burning — quando o cinema encontra a literatura

Dirigido por Lee Chang-dong, Burning (Beoning, 2018) é uma das grandes surpresas do cinema Coreano neste ano. Mesmo com a maré baixa em que vive o cinema do país nos dias atuais — comparado com os anos 2000 onde diretores como Park Chang-wook, Bong Joon-ho, Kim Ki-duk e o próprio Lee Chang-dong emergiram e colocaram definitivamente a Coreia do Sul na atenção dos grandes festivais de cinema —, a produção aparece como uma lembrança de que o cinema realizado por lá ainda tem muito ainda a nos surpreender, tanto por suas narrativas quanto pela destreza com a linguagem cinematográfica. Com uma fotografia magnificente e perpetrada por uma trilha musical, a produção é uma adaptação de um dos contos do livro O Elefante Desaparece (Cia. das Letras, 2018), do renomado escritor Haruki Murakami, publicado em 1992 e que recentemente ganhou uma edição brasileira.
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