Militância a 120 Batimentos Por Minuto

Criada em 1989 nos moldes da original nova iorquina, a associação Act Up Paris reúne desde então a comunidade homossexual parisiense em torno da luta contra a AIDS. É uma organização autônoma que realiza atos militantes na capital francesa com objetivo de dar visibilidade às suas causas. Um dos seus membros, o cineasta Robin Campillo recria parte desta luta no início dos anos 90, quando o descaso de autoridades tornava a ação ainda mais urgente. Premiado como Melhor Filme pela Fipresci este ano em Cannes, seu 120 Batimentos Por Minuto (120 BPM, 2017) faz um retrato ficcional da Act Up e daquele conturbado período.
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Senhora Fang e a trivialidade da morte

Em seus três planos iniciais, Senhora Fang (Fang Xiu Ying, 2017) apresenta sua personagem título em momentos e espaços distintos, mas o olhar vazio e o corpo que expressa uma inércia quase total são constantes. Daí, o choque: o plano que segue é um close em seu rosto, agora cadavérico. A boca entreaberta e as bochechas esquálidas saltam dentes e ossos e sua face revela nada que não seja a aproximação da morte por uma doença que ainda não é revelada ao espectador. Tal plano se repete em momentos diferentes nos dilacerantes oitenta e seis minutos do documentário que, em uma crueza radical, acompanha o definhar de uma vida ordinária no sul da China.
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O dois em um de As boas maneiras

É automático que se associe o nome da cineasta Juliana Rojas ao cinema fantástico. Em seus trabalhos anteriores, a diretora fez uso de elementos do suspense e do terror para contar suas histórias, em geral com algum comentário pertinente de ordem social. No longa Trabalhar Cansa (2011), parceria com Marco Dutra, o mistério e o drama se unem em um minimercado onde o desemprego, a relação patrão-empregado e fenômenos estranhos conduzem a narrativa. Já em Sinfonia da Necrópole (2014), certo humor surge em um musical que se passa em um cemitério e oferece um discurso claro sobre a especulação imobiliária.

Neste As boas maneiras (2017), Rojas volta a trabalhar com seu parceiro habitual e flerta com o universo dos lobisomens. Na trama, Clara, uma empregada doméstica da periferia de São Paulo, é contratada para acompanhar e auxiliar Ana, mãe solteira de classe alta, em sua gravidez que se mostra arriscada com o passar do tempo. Aos poucos, a necessidade incontrolável de Ana por carne vermelha e seu sonambulismo trazem à tona estranhos e bizarros acontecimentos que antecipam a chegada de uma perigosa criatura.
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Os universos de Aronofsky e Mãe!

É bem provável que toda análise que se detenha à nova realização de Darren Aronofsky, Mãe! (mother!, 2017), inicie avisando seus leitores que algumas revelações importantes sobre a trama serão feitas durante a leitura. É complexo dissertar e, principalmente, opinar sobre a produção sem entregar pontos-chave da história. Afinal, a maneira como o filme também foi vendido não representa o que ele realmente é. São contornos e desvios que a produção toma ao longo de sua projeção que surpreende ser um produto de um estúdio de Hollywood em uma época na qual esse tipo de produção se tornou uma anomalia para os produtores e distribuidores de larga escala. Afinal, já se vão anos em que o investimento e espaço para produções com teor mais intelectual e viés dramático perderam território para alienígenas com capas coloridas e super poderes. E, independente das opiniões serem divergentes sobre a qualidade de Mãe!, não há como negar a sua importância nesse cenário saturado.

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Era uma vez Brasília não cumpre o que promete

É de se admirar a capacidade de alguns críticos em Brasília em conseguir organizar as ideias em torno de Era uma vez Brasília (2017) e até defender o filme com segurança, apontando para detalhes do enredo. De fato, poucos tiveram essa capacidade, e esta autora não se encontra entre eles.

Ter assistido aos anteriores A Cidade é uma Só? (2011) e, principalmente, Branco sai, Preto Fica (2014), deveria ser condição privilegiada para a compreensão do concorrente nesta 50ª edição do Festival de Cinema de Brasília. No entanto, foi de pouco auxílio ter conhecimento do universo do diretor Adirley Queirós, pois o que predomina no filme atual é a confusão de tempos cronológicos, numa narrativa incompetente para permitir que a plateia entre no filme. Curiosamente, a produção levou, além dos prêmios técnicos de Fotografia e Som, também o de Melhor Direção. Se considerarmos que é um filme com todos os ingredientes da autoralidade, com evidentes deficiênicas de roteiro, é realmente um prêmio curioso.
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Era Uma Vez Brasília: Ponte para o futuro

Quase cinquenta anos nos separam do antológico plano final de oito minutos, síntese de O Anjo Nasceu (1969) e do trabalho que um dos melhores cineastas brasileiros, Júlio Bressane, o qual viria a desenvolver em torno da forma cinematográfica – pela rarefação e a disjunção. O cinema-OVNI de Adirley Queirós, se já frontal e formalmente questionador em A Cidade é uma Só? (2011) e Branco Sai, Preto Fica (2014), se complexifica, ressignifica e autodestrói em Era Uma Vez Brasília (2017), estabelecendo um diálogo justamente com a história do cinema marginal brasileiro e o legado de Bressane, Sganzerla e Tonacci. Era Uma Vez é um filme que trabalha o desconforto, denuncia e incorpora uma letargia coletiva através de dilatação temporal e estrita sistemática gramatical, composta de planos longos ora de tableaux vivants meio Roy Andersson, ora de campo/contracampos internos pelo mover da câmera no próprio eixo (pan). Acima de tudo, é um filme, como o próprio Adirley descreve, sobre “a possibilidade de fabular”, um sci-fi terceiromundista anarrativo que atravessa diretamente uma situação política concreta, no maior estilo Alegorias do subdesenvolvimento.
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Precisamos ler sobre Kubrick

As entrevistas concedidas por Kubrick podiam ser chamadas de raridades. Recluso e excêntrico, foram poucos os momentos em que o cineasta americano se mostrava receptivo em abordar sua filmografia e processo de criação. Não é à toa que Kubrick (Michel Ciment, trad. Eloisa Araújo Ribeiro, 2017, 370p.), lançado anteriormente pela Cosac Naify e agora relançado em outra belíssima edição pela editora Ubu, é um exemplar que se detém mais em depoimentos de profissionais próximos do cineasta do que declarações do próprio. Mas assim é de um rigor e primor que avança até mesmo abrangendo sua última realização, o excepcional De Olhos Bem Fechados (1999), o qual o diretor faleceu antes de assistir finalizado.

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