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Festival de Locarno 2020: Distribuição de filmes em tempos de pandemia

Já foi dada a partida no Festival de Locarno de 2020 que este ano oferece ao seus espectadores e profissionais do mercado audiovisual uma versão diferente devido à pandemia que vivemos. Parcialmente presencial e com um bom volume de ações e exibições virtuais, os organizadores e a diretoria artística mantém uma seleção competitiva de filmes, dessa vez destacando os filmes em desenvolvimento (Lisandro Alonso e Lucrecia Martel são alguns dos nomes selecionados) para dar um incentivo para a finalização das obras que se encontram, devido ao covid-19, paradas ou sem financiamento. Em paralelo, o festival dedica uma retrospectiva com filmes exibidos ao longos dos anos e a sua já reconhecida seleção de médias e curtas-metragens (esses inéditos) em competição a nível mundial e suíço. Locarno quer olhar para o futuro dos filmes, mas para isso (e muito intensificado pelo momento) acha necessário retomar e melhor compreender o passado. É uma atitude reflexiva exemplar dado que festivais são tão compromissados com as engrenagens de um sistema de distribuição e legitimação em um fluxo mercadológico intenso. Parar, refletir e compreender o novo e provisório modus operandi é importante e permite ressignificar como refletimos, assistimos e fazemos cinema.

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O inimigo invisível

Nos últimos anos, a Europa passou por momentos economicamente delicados. Portugal, por exemplo, teve uma alta taxa de desemprego e assistiu uma geração de jovens prestes a entrar no mercado de trabalho, perder a fé de viver no país. Por mais que ainda exista reflexos de dificuldade econômica na Zona do Euro, é certo que as nações afetadas estão reagindo e o momento atual não é tão caótico como em anos anteriores, por mais que ainda haja complicações sociais devido a um período confuso. Colo (2017)  faz parte desse contexto e se dedica a radiografar tal fase em Portugal a partir de uma família pertencente à classe média lisboeta que, em razão aos obstáculos originados durante a crise do capital, estaciona em um furacão.

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A União é autogestionada

Após uma longa sessão de três horas de A Fábrica de Nada (2017), é importante ficar atento aos créditos. Ali, descobre-se que a narrativa é baseada em uma história real de trabalhadores que passaram a gerir de forma autogestionada uma fábrica de elevadores por mais de quarenta anos. A informação é importante porque esclarece o contexto do que fora assistido, especialmente para quem não é português e tem mais probabilidades de desconhecer esse dado previamente. Pois, em princípio, pensa-se em um filme que traça um panorama de Portugal durante a crise enfrentada no início do século XXI. Entretanto, A Fábrica de Nada lida diretamente com uma forma camaleônica do capitalismo que, quando parece ruir, retorna mais forte, assim como também lida com a resistência do proletariado diante do massacre do capital.

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Metralhadora giratória

Desde os créditos iniciais, Diamantino (2018) já escancara a chave debochada com que irá trabalhar ao longo da narrativa: “Toda a história, todos os nomes, personagens e acontecimentos retratados neste filme são fictícios, nenhuma identificação com pessoas reais (vivas ou mortas), lugares, produtos, procedimentos genéticos ou cachorrinhos gigantes é intencional ou deve ser inferida. Nenhum animal foi maltratado durante a produção desse filme.”. Bem, o que seriam os cachorrinhos gigantes citados? Logo fica claro que os tais animais de tamanho desproporcional são uma imagem de conforto para o craque do futebol Diamantino. Um sujeito que é tão bom com a bola nos pés como aparvalhado em qualquer situação social. A personalidade do jogador lembra a de Garrincha e a falta de discernimento do mundo à sua volta. Garrincha era tão obtuso em qualquer situação fora do campo de jogo que tinha dificuldades até de entender o seu tamanho como craque de bola. O poeta Carlos Drummond de Andrade destacou as dificuldades do jogador em crônica ao jornal do Brasil dois dias após a morte do eterno camisa sete do Botafogo: “Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas.”

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O medo da dor

Durante a segunda guerra mundial, Jojo, um menino de dez anos se define como nazista convicto e espera cumprir com seus treinamentos no exército para auxiliar a vitória alemã no combate armado. Tamanho é o fanatismo que seu amigo imaginário é o próprio Adolf Hitler, com quem ele conversa acerca da grandiosidade dos arianos perante outros povos, dentre outros assuntos relacionados ao nazismo. Essa premissa pode parecer absurda, mas tudo acontece de forma tão suave em Jojo Rabbit (2019) que esse disparate torna- se apenas um delírio de uma criança impressionável, mas de bom coração.

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Expectativa – 30 filmes para 2020

Cada vez mais os estúdios de Hollywood preferem investir em produções certeiras para arrecadamento: filmes de super-heróis, de ação e terror. Não há nada de errado com essas realizações, porém o volume desse tipo de filme se torna insustentável para as salas e até mesmo para o público. Novos repertórios não são criados e o cinema como produto vira um enlatado barato, formulaico. Além disso, nem tudo é uma guerra entre DC e Marvel. Não é de hoje essa crise. Felizmente, sempre há grandes filmes que despontam por colocar o público a refletir a respeito da sociedade e política, sobre os relacionamentos e escolhas e como elas impactam o seu entorno. Aqui estão algumas.

Confira abaixo a nossa lista de expectativas com 30 filmes para 2020.

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Melhores Filmes de 2019

Já estamos em 2020. Nossa lista chega com um certo atraso. Mas como nunca é bom deixar certos compromissos para trás, divulgamos a nossa lista de melhores de 2019 em um momento em que a avalanche de listas passou. Listas de melhores filmes são importantes, mas nem tanto e o timing talvez não seja perfeito, mas a intenção é das melhores. O ano que passou foi de grandes impactos na nossa cultura e no nosso audiovisual. E quando falamos em impactos, não são nada benéficos. Assistimos a cada dia diversas instituições que são de grande suporte ao cinema nacional serem pulverizadas por questões ideológicas fascistas e nacionalistas travestidas de buscar zero ideologias e zero partidos políticas. 2019 foi difícil. Difícil comentar sobre um filme sem visualizar questões políticas e até mesmo comparar com o nosso presente. Nosso grande escolhido foi Dor e Glória (Dolor y Glória), de Pedro Almodóvar. Um cineasta que sempre trabalhou resistindo a um sistema conservador e reacionário trazendo história de mulheres, transsexuais, travestis, homossexuais e homens sensíveis em meio a homens brutos e violentos. Neste seu mais recente e elogiado filme, acompanhamos o personagem de Antonio Banderas (merecidamente indicado ao Oscar pelo papel) revistando os momentos emblemáticos de sua infância e suas paixões. Um 8 e ½ almodovariano, sensual, melancólico e esperançoso. Esperança de resistir aos golpes da vida. Assim como resistiremos em 2020. Conheça a nossa lista de melhores: